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O amendoim é uma das principais oleaginosas produzidas no mundo, ocupando o quinto lugar no ranking de produção mundial.

Amendoim: Importância econômica e os principais desafios produtivos

Figura 1. Fenologia da planta de amendoim. Foto: Matheus Luís de Oliveira Cunha.

1. Amendoim: Aspectos produtivos

O amendoim (Arachis hypogaea L.) é originário da América do Sul e atualmente seu cultivo é realizado em quase todas as regiões tropicais e temperadas. Essa cultura é considerada uma das principais oleaginosas produzidas no mundo, ocupando o quinto lugar no ranking de produção mundial (USDA, 2017). No ano passado no Brasil, foram colhidas 544,8 mil toneladas em uma área cultivada de 153,3 mil hectares, sendo 9,7% maior à área semeada na última safra (Conab, 2020).

A planta de amendoim é composta por flores, folhas, caule central, ginóforo, vagens e raiz (Figura 1). A formação das vagens ocorre após a fertilização da flor, por meio do ginóforo (Luz et al., 2010). O ginóforo é formado e estica-se até penetrar o solo para dar origem a vagem (Figura 2). O ginóforo não tem a constituição de um pedúnculo, mas é o alongamento do próprio ovário, que após penetrar no solo dará origem a formação da vagem do amendoim. A Figura 2 ilustra diferentes fases de crescimento da vagem do amendoim. O desenvolvimento das vagens de amendoim é altamente dependente da demanda de nutrientes absorvidos pelas raízes ou da translocação de açúcares proveniente da parte aérea das plantas. Dentre os nutrientes, o fósforo e o cálcio tem um papel fundamental na formação das vagens.

Figura 2. Ginóforo e fases de desenvolvimento da vagem do amendoim. Foto: André Rodrigues dos Reis.

O ginóforo recém emergido detecta a gravidade e se curva para baixo. Posteriormente, o meristema intercalar da base do ovário divide-se rapidamente, fazendo com o que ocorra o alongamento do ginóforo até a penetração do mesmo no solo. Depois que a ponta do ginóforo penetra no solo verticalmente, ela reorienta horizontalmente para posteriormente receber sinais para retomada da divisão de células embrionárias, facilitando o desenvolvimento de vagens geocárpicas (Figura 3) (Kumar et al., 2019).

Figura 3.  Desenvolvimento de estacas e formação de vagens aéreas em amendoim. (Uma flor; (B) ovário de flor emasculado na base do ginóforo; (C) emergência da cavilha da flor (D – E), ginóforo dobrando em direção à gravidade; (F) penetração do ginóforo no solo com fios esbranquiçados na base de penetração do solo; (G) mudanças morfológicas em uma cavilha após a penetração no solo; (H) aborto de estaca aérea por falha de penetração no solo; (I – J) desenvolvimento de vagem aérea sob condição de déficit hídrico. Flecha é usado para destacar o conteúdo especificado das respectivas imagens. Fonte: Kumar et al. (2019).

2. Tipos e características de grupos do amendoim

Existem quatro tipos de mercado de amendoim: tipos de Virgínia, Runner, Valência e Espanhol (Anco, 2019). No Brasil, os tipos Valência e Virgínia são os mais cultivados (Heid et al., 2016). Os cultivares pertencentes ao grupo Valência possuem eixo central com flores, ciclo curto, hábito de crescimento ereto ou semi-ereto e poucas ramificações secundárias. Por outro lado, os cultivares que fazem parte do grupo Virgínia, possuem ciclo longo, ausência de flores no eixo central, habito de crescimento rasteiro e vagens com dois ou três grãos.

O amendoim do grupo Virgínia, possui maior produtividade em função de suas folhas apresentarem maior aérea foliar, o que aumenta a eficiência na captação de luz solar, gerando aumento na assimilação de CO2. Outro fator que contribui para maior produtividade desse grupo, se deve ao seu hábito de crescimento rasteiro. A distância que o ginóforo percorre até penetrar no solo em cultivares rasteiros é menor comparado a cultivares de porte ereto, o que resulta em menor gasto de energia pela planta.

3. Desafios da produção de amendoim

A produção do amendoim pode ser afetada por alguns fatores tais como a época de semeadura, ocorrência de doenças e pragas.

3.1 Época de semeadura

O amendoim pode ser semeado em duas épocas. A primeira chamada de safra das águas que varia de outubro a novembro e a segunda época denominada de safra da seca. A maior produtividade do amendoim é obtida na safra das águas, devido a disponibilidade hídrica ser maior. Porém, nessa modalidade de semeadura, há riscos de afetar o operacional da colheita dado que as chances de ocorrências de chuvas durante o período de colheita são grandes. Por outro lado, o amendoim cultivado na safra da seca há risco de haver prejuízos na lavoura ocasionado pela falta de chuva. Dessa maneira, ao optar por essa modalidade de semeadura, cultivares de amendoim que possui ciclo mais tardio, deve ser evitado ou substituído por outro de ciclo mais precoce.

3.2 Doenças

Dentre as doenças que atacam a planta de amendoim, tem-se a pinta preta, mancha castanha e mancha em V (Figura 4). Essas doenças atingem os folíolos, diminuindo o índice de área foliar e podem provocar a queda prematura das folhas, reduzindo a fotossíntese o que resulta em menor produção de foto assimilados e produtividade. Os principais métodos de controle para a mancha preta e castanha é a utilização de fungicidas, incorporação de restos culturais, adoção de cultivares resistentes e rotação de culturas. Já para mancha em V, é recomendado rotação de culturas e eliminação de restos culturais e plantas voluntárias.

Os sintomas ocasionados pela pinta preta e mancha castanha são parecidos, sendo a diferença entre ambas, o tom do halo amarelado ao redor da lesão. Na pinta preta, o halo amarelado é menor comparado ao da mancha castanha. Para mancha em V, o sintoma se dá pela formação de um vértice voltado para o centro do folíolo do amendoim em formado de V.

Figura 4. Principais doenças que afetam a produtividade do amendoim. Foto: Matheus Luís O. Cunha.

3.3 Pragas

De todas as pragas que podem atacar a cultura do amendoim, a tripes e as lagartas requerem bastante atenção por parte do produtor. A tripes raspam os folíolos, dando origem manchas prateadas. Já as lagartas se alimentam da folha (Figura 5). Em ambos os casos, faz com que diminua a área foliar, reduzindo a fotossíntese e consequentemente a produtividade.

Figura 5. Sintomas de ataque de lagarta e tripes na cultura do amendoim. Foto: Matheus Luís O. Cunha.

O manejo de pragas e doenças é de extrema importância para que o aparato fotossintético das plantas funcione de forma adequada, garantindo assim o metabolismo de carboidrato necessário para o crescimento vegetal, enchimento de grãos e garantir uma boa produtividade do amendoim.

Referências

Anco, D. (2019). Peanut money-maker 2019 production guide. South Carolina State Documents Depository.

Conab- Companhia Nacional de Abastecimento (2020), Acompanhamento da safra brasileira de grãos, v.7 – Safra 2019/20, n.10 – Décimo Levantamento, p.1-73. Disponível em: https://www.conab.gov.br/info-agro/safras/graos/boletim-da-safra-de-graos.

Heid, D. M., Zárate, N. A. H., Ohland, R. A. A., Torales, E. P., Moreno, L. B., & Vieira, M. D. C. (2016). Produtividade agronômica de genótipos de amendoim Virginia cultivados com diferentes espaçamentos entre fileiras no canteiro. Revista de Ciências Agrárias, 39(1), 105-113.

Kumar, R., Pandey, M. K., Roychoudhry, S., Nayyar, H., Kepinski, S., & Varshney, R. K. (2019). Peg biology: deciphering the molecular regulations involved during peanut peg development. Frontiers in plant science10, 1289.

Luz, L. N. D., Santos, R. C. D., Silva Filho, J. L. D., & Melo Filho, P. D. A. (2010). Estimativas de parâmetros genéticos em linhagens de amendoim baseadas em descritores associados ao ginóforo. Revista Ciência Agronômica41(1), 132-138.

Usda. United states department of agriculture. Oilseeds (2017): World Markets and Trade. Foreign Agricultural Service. February,. Disponível em:< https://apps.fas.usda.gov/psdonline/circulars/oilseeds.pdf >

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Você sabia que a castanha-do-brasil é o alimento mais rico em selênio (Se)? Reconhecida como principal fonte de Se para humanos.

Castanha-do-Brasil: um tesouro para a alimentação da população brasileira

Figura 1. Abertura do ouriço de castanha-do-brasil para obtenção das nozes. Foto: Anne Caroline Rocha Silva. Itacotiara-AM.

Você sabia que a castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa) é o alimento mais rico em selênio (Se)? Reconhecida como principal fonte de Se para a dieta humana e animal, a castanheira-do-brasil tem sido objeto de muitos estudos, devido à grande variabilidade no teor desse elemento em suas castanhas, sendo já reportados valores de até 512 mg Se kg-1 em suas amêndoas (Freitas et al., 2004; Dumont et al., 2006). Segundo Kabata-Pendias & Mukherjee (2007) o Se possui importante papel na saúde animal, humana e em outros organismos, como bactérias e algas.

Amplamente distribuída em toda a região Amazônica, a castanha-do-brasil possui grande importância social, ecológica e econômica para a região, onde milhares de famílias e produtores rurais utilizam sua semente como fonte de renda e alimento (Wadt et al., 2012). Por isso tem sido incentivado o plantio de castanhas-do-brasil, reincorporando as áreas degradadas ao processo produtivo, uma vez que é o segundo produto florestal não madeireiro de maior relevância comercial, ficando atrás apenas do fruto do açaí (Euterpe spp.) (Pacheco & Scussel, 2007; IBGE, 2010). As nozes são formadas dentro do ouriço como ilustrado na Figura 1. Cada ouriço tem aproxidamente 15 a 17 nozes.

Mas afinal, o que é selênio? O Se é um elemento traço, com função oxidante, associado à selenoproteínas que protegem contra a oxidação no organismo. Este nutriente apresenta propriedades essenciais ou tóxicas para os seres humanos dependendo da faixa de concentração no alimento ingerido (Reis et al., 2020). A recomendação de ingestão diária de Se para humanos é na faixa de 50 a 70 μg por dia (Reis et al., 2017).

Os teores naturais de Se nos solos podem variar de 0,05 a 1,50 mg kg-1. Em sua maioria, os solos das regiões temperada úmidas, originários de rochas sedimentares possuem níveis de Se insuficientes para a produção de alimento com teores adequados à nutrição humana e animal, sendo necessária a adubação de correção (Reis et al., 2017). Os fatores que controlam a disponibilidade de Se para plantas e animais variam nos diferentes tipos de solos. Dentre eles, podemos citar a geologia, quantidade de matéria orgânica, pH do solo, presença de íons competidores como o sulfato e o fosfato, textura do solo, compactação e mineralogia, temperatura do solo, atividade microbiana, nível de precipitação, irrigação, etc. Por exemplo, solos com elevado teor de matéria orgânica e altos teores de oxihidróxidos de Fe e de argila tendem a inibir a absorção de Se pelas plantas e animais (Fordyce et al., 2010).

A deficiência ou toxidez de Se nos solos reflete no teor do elemento presente nos alimentos que são cultivados nestas regiões. Isso tem gerado interesse nos estudos de biogeoquímica deste elemento. O presente estudo busca conhecer melhor e caracterizar os teores de Se na castanha-do-brasil e em solos da região Amazônica e suas relações tanto com a disponibilidade de Se como com as possíveis bactérias redutoras de Se do solo. As amostras de solo e amêndoas foram coletadas em ambiente natural (castanhal nativo) e em fazenda de produção de castanha. A fazenda escolhida como área experimental foi a Aruanã, localizada no município de Itacoatiara-AM.

Diante da escassez de informações sobre o Se nos solos brasileiros, bem como sua relação com a castanha-do-brasil e a biodiversidade microbiana envolvida nos processos de redução e disponibilização deste elemento, espera-se através deste projeto fortalecer as pesquisas com Se em solos tropicais. O GEFA (Grupo de Estudos em Fisiologia Agrícola) tem projetos em parceria com Instituto Soka e Fazenda Aruanã situadas na Amazônia contribuindo para a formação de recursos humanos, de maneira multidisciplinar e que possa atender às demandas da sociedade, realizando uma pesquisa em alto nível científico. As Figuras de 1 a 5 ilustra o trabalho de doutorado de Anne Caroline Rocha Silva sobre coleta de ouriços para obtenção das nozes, coleta de solo e marcação de castanheiras nativas e cultivadas na região de Itacotiara-AM, e seleção de bactérias redutoras de Se das rizosferas de castanhais da Amazônia.

Figura 2. Coleta de amostra de solo em uma área de castanhal nativo. Foto: Anne Caroline Rocha Silva. Itacotiara-AM.

Figura 3. Árvore adulta de casanha-do-brasil, cultivar Manoel Pedro, Fazenda Aruanã, Itacotiara-AM. Foto: Anne Caroline Rocha Silva.

Figura 4. Abertura dos ouriços na fazenda Aruanã, Itacotiara-AM. Foto: Anne Caroline Rocha Silva.

Figura 5. Bactérias redutoras de selênio extraídas de amostra de solo da região Amazônica. Foto: Anne Caroline Rocha Silva.

Os estudos sobre variação genotípica de Se nas castanhas e sua regulação genética de acúmulo nas nozes ainda são muito escassas. É necessário mais estudos de caracterização genotípica de castanhais nativos e cultivados para o melhor entendimento sobre o acúmulo do Se nas nozes.

Referências

Dumont, E., Pauw, L., Vanhaecke, F., Cornelis, R., 2006. Speciation of Se in Bertholletia excelsa (Brazil nut): A hard nut to crack? Food Chemestry 95: 684–692. https://doi.org/10.1016/j.foodchem.2005.04.004

Fordyce, F.M., Brereton, N., Hughes, J., Luo, W., Lewis, J. 2010. An initial study to assess the use of geological parent materials to predict the Se concentration in overlying soils and in five staple foodstuffs produced on them in Scotland. The Science of the Total Environment 408(22):5295–305.

Freitas, S.C., Antoniassi, R., Felberg, I., Santos, N.M.S., 2004. Selênio em castanha-do-brasil (Bertholletia excelsea). Rio de Janeiro: Embrapa Agroindústria de Alimentos. (Embrapa Agroindústria de Alimentos. Comunicado técnico, 71).

Instituto Brasileiro De Geografia E Estatística (IBGE), 2010. Produção da extração vegetal e silvicultura 23: 1-45. IBGE, Rio de Janeiro.

Kabata-Pendias, A., Mukherjee, A.B., 2007. Trace Elements from Soil to Human. 10.1007/978-3-540-32714-1.

Kabata-pendias, A.; Pendias, H. Trace elements in soils and plants.  Elements group 16, fourth ed. CRC Press, Boca Raton, p. 367–383, 2011.

Pacheco, A.M., Scussel, V.M. 2007. Selenium and aflatoxin levels in raw Brazil nuts from the amazon basin. Journal of Agricultural and Food Chemistry 55(26): 11087–11092.

Reis A.R., El-Ramady H., Santos E.F., Gratão P.L. Schomburg L. (2017) Overview of selenium deficiency and toxicity worldwide: affected areas, selenium-related health issues, and case studies. In Selenium in plants: Molecular, Physiological, Ecological and Evolutionary Aspects (eds. E. A. H. Pilon-Smits, L. H. E. Winkel & Z. Q. Lin), pp. 209-230. Springer International Publishing, Cham. doi: 10.1007/978-3-319-56249-0_13.

Reis, A.R., Boleta, E.H.M., Alves, C.Z., Cotrim, M.F., Barbosa, J.Z., Silva, V.M., Porto, R.L., Lanza, M.G.D.B., Lavres, J., Gomes, M.H.F., Carvalho, H.W.P. 2020. Selenium toxicity in upland field-grown rice: Seed physiology responses and nutrient distribution using the μ-XRF technique. Ecotoxicology and Environmental Safety 190: 110147.

Wadt, L.H.O., Kainer, K.A., 2012. Domestication and breeding of the Brazil nut tree. In: Borém, A. et al. (Eds.). Domestication and breeding: Amazonian species. Viçosa, MG: Universidade Federal de Viçosa. pp. 297–317.

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A cana-de-açúcar corresponde a 80% da produção global de açúcares, sendo essencial para a indústrias de etanol e na alimentação humana.

Como aumentar o metabolismo de açúcares e a atividade antioxidante em plantas de cana-de-açúcar?

Figura 1. Ação do selênio (Se) na produção de açúcares a partir do aumento da eficiência do uso no nitrogênio (NUE), taxas fotossintéticas e ativação de enzimas-chave na síntese de açúcar aliada ao seu papel mitigador do estresse abiótico. SOD – superóxido dismutase, CAT – catalase, APX – ascorbato peroxidase, GR – glutationa redutase, H2O2 – peróxido de hidrogênio, 1O2oxigênio singleto.

Saccharum spp. é uma gramínea conhecida popularmente como cana-de-açúcar, (Santos and Diola, 2015) que corresponde a cerca de 80% da produção global de açúcares (Chen et al., 2019). Cultivada há centenas de anos e com programas de melhoramento voltados ao seu cultivo que proporcionaram a diminuição do seu custo de produção drasticamente (Leal et al., 2013) e que continua na busca incessante por mecanismos capazes de aumentar o açúcar produzido pela cana-de-açúcar (Chen et al., 2019),

A atual pandemia provocada pelo COVID-19 provocou decréscimo na demanda mundial do consumo de açúcar, principalmente pelas restrições nos padrões de importação e exportação (OECD/FAO, 2020) a fim de diminuir a disseminação do vírus, o que ocasionou prejuízos à economia. Assim, vê-se a necessidade ainda maior pela busca de mecanismos que possam aumentar a produção de açúcar.

O selênio é um elemento que atua no aumento dos processos antioxidantes contra a ação do estresse abiótico combatendo as espécies reativas de oxigênio (EROs) (Ríos et al., 2009; Silva et al., 2020; White, 2018), aumenta a produção de açúcares a partir do aumento da concentração de pigmentos fotossintetizantes e taxas fotossintéticas e ativação de enzimas-chave no processo de síntese de açúcares. como amilases, a sacarose sintase (SuSy) e a sacarose-fosfato sintase e invertase (Malik et al., 2011) (Figura 1).

A ciência busca aumentar a produção de açúcares, principalmente a sacarose que é a principal açúcar na produção de álcool e alimentação humana (Wu and Birch, 2007), é o melhoramento genético das variedades já cultivadas (Jackson, 2005; Wu and Birch, 2007) e aplicação de hormônios para o aumento do açúcar no colmo da planta (Chen et al., 2019).

A utilização de sacarose isomerases provenientes de bactérias já foram testadas como forma de aumentar a produção do açúcar. O açúcar produzido não seria degradado pela planta, mas seria uma fonte viável de energia para o consumo humano (Wu and Birch, 2007). As plantas modificadas com o gene da enzima produziram mais açúcar no caldo, aumentaram as taxas fotossintéticas da planta e apresentaram uma maior atividade nos tecidos que funcionam como dreno (Wu and Birch, 2007).

Um outro método utilizado para aumentar o metabolismo de açúcares na cana-de-açúcar é a utilização de etileno (Chen et al., 2019). A aplicação de Etephon (ácido (2-cloroetil) fosfônico), precursor do etileno é comumente utilizado na maturação da cana-de-açúcar (Li and Solomon, 2003). Houve aumento na produção de sacarose e amido apenas em genótipos que normalmente produzem pouco açúcar, variedades com alta produção de açúcar não apresentaram respostas significativas à aplicação do hormônio maturador (Chen et al., 2019).

Esses trabalhos com sucesso para o aumento da produção de sacarose ainda são escassos, os programas de melhoramento ainda mostram certas dificuldades. Segundo dados apresentados pela FAO (OECD/FAO, 2020), o consumo de açúcar nos próximos anos ultrapassará os valores de produção mundial. Os prejuízos provocados pela Covid-19 à produção global de açúcar não serão passageiros, serão então necessárias pesquisas com foco na produção e cultivo da cana-de-açúcar, responsável por cerca de 80% da produção do açúcar na indústrias de etanol e na alimentação humana (Chen et al., 2019). O Brasil, maior produtor mundial de cana de açúcar (Carvalho et al., 2017), viu sua liderança na produção de cana-de-açúcar ser tomada pela Índia em 2019/2020 vai retomar a dianteira por problemas do oponente relacionados ao clima (OECD/FAO, 2020). Assim, podemos acreditar que é uma década em que a Ciência, principalmente a brasileira, precisa voltar os olhos e esforços em suas pesquisas com essa importante gramínea.

Referências

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As doenças de plantas é o objetivo central da Fitopatologia, e esta, é a ciência que estuda esse fenômeno em todos os seus aspectos.

Fitopatologia aplicada no manejo de doenças em grandes culturas

Figura 1. Coletor de esporos instalado em área de soja e cana-de-açúcar em Pindorama-SP. A. coletor de esporos a 1,60 metros de altura do solo; B. Lâmina de microscopia e fita adesiva dupla face transparente; C. brotação da cana-de-açúcar. Fotos: Renato Boreli Silva

A quantidade de danos gerados pelas doenças que ocorrem em grandes culturas como a soja, trigo, citros, cana-de-açúcar, algodão e outras, tem causado preocupações constantes a produtores e pesquisadores. A FAO estima-se que anualmente entre 20 a 40% da produção agrícola global são perdidos para as pragas e doenças e a cada ano, as doenças das plantas custam à economia global cerca de US $ 220 bilhões (Montuori, 2020).

As doenças de plantas é o objetivo central da Fitopatologia, e esta, é a ciência que estuda esse fenômeno em todos os seus aspectos desde a diagnose e sintomatologia, passando pela etiologia e epidemiologia, até chegar ao manejo.

Atualmente a fitopatologia se desenvolve principalmente em três abordagens: a abordagem fisiológica, na qual as doenças de plantas passam a ser encaradas com base nas relações fisiológicas, dinâmicas entre a planta e patógeno; a abordagem epidemiológica, baseada numa visão holística de como as doenças aumenta no campo; e a abordagem biotecnológica, utilizando da tecnologia do DNA recombinante para a busca do entendimento de padrões genômicos entre organismos e de expressão gênica para a identificação de genes de resistência para as principais doenças das culturas agrícolas (Amorim et al., 2018).

A abordagem epidemiológica tem grande importância para o manejo das doenças, visto que se utiliza de conhecimentos básicos como a diagnose e monitoramento da incidência e severidade da doença no campo, para a recomendação racional dos fungicidas e inseticidas (controle de vetores) nas culturas. Um exemplo de manejo racional das doenças em grandes culturas é o realizado por extensionistas e pesquisadores da IDR-PR e Embrapa-soja no Estado do Paraná para o manejo da ferrugem asiática da soja (Phakopsora parchirizi), onde se utiliza da inspeção a campo e o monitoramento com a ferramenta coletor de esporos, que possibilita detectar os uredósporos do fungo, transportados pelo vento, antes da manifestação sintomática nas plantas, possibilitando assim o manejo técnico e econômico da doença (Igarashi et al., 2016; Oliveira et al., 2020; Seixas et al., 2020).

A observação detalhada dos sintomas e sinais das doenças nas plantas e o uso do coletor de esporos (Figura 1) ajudam engenheiros agrônomos, técnicos e aos produtores a serem mais assertivos na diagnose da doença e na determinação do momento ideal de aplicação dos fungicidas para diferentes grandes culturas.

Note os detalhes dos sintomas da mancha marrom da soja causada pelo fungo Septoria glycines e da cercosporiose causada pelo fungo Cercospora kikuchii (Figura 2), você consegue verificar as diferenças entre elas? Podemos observar que as lesões da mancha parda são angulares, de cor castanho-claro, e apresentam halo amarelo em torno das lesões, já as lesões de cercosporiose são irregulares e difusa, não possui bordos delimitando a lesão, apresenta coloração castanho-escuro e com halos cloróticos. As pequenas diferenças nos sintomas aumentam a acurácia para a correta identificação da doença e permite a escolha de um fungicida eficiente para o agente causal.

 

Figura 2. Manchas foliares na soja. A. sintomas de cercosporiose e conídios de C. kikuchii; B. sintomas de mancha parda e conídios de S. glycines. Fotos: Renato Boreli Silva.

 

O monitoramento com o coletor de esporos permite observar a ocorrência dos esporos na área de cultivo e assim conseguimos utilizar dos fundamentos do triângulo da doença com maior clareza, uma vez que, para que ocorra a doença, precisamos que os três vértices do triângulo estejam se completando, tendo o hospedeiro suscetível, a presença do patógeno virulento e o ambiente favorável.

Na Figura 3 são esporos de três importantes doenças fúngicas da cana-de-açúcar observados na lâmina do coletor: a ferrugem marrom causada por Puccnina melanocephala; ferrugem alaranjada da cana causada por Puccinia kuehnii e o carvão causada por Sporisorium scitamineum. Imagine que o clone da cana-de-açúcar seja susceptível a essas doenças e caso o ambiente estivesse favorável, com previsões de chuva, saberíamos que o risco de ocorrência da doença seria alto, podendo até iniciar uma epidemia na população de plantas, caso os sintomas fossem observados tardiamente.

 

Figura 3. A. Uredósporos de P. melanocephala; B. uredósporos de P. Kuenii; C. teliósporos de Sporisorium scitamineaum. Fotos: Renato Boreli Silva.

 

Em busca da produção sustentável de alimentos, a fitopatologia aplicada pode contribuir economicamente na intenção de manter ou elevar a produtividade das culturas, maximizar os rendimentos e racionalizar os custos; ambientalmente na preservação do ecossistema diminuindo o impacto dos defensivos agrícolas; e socialmente em busca de garantir a qualidade de vida para o produtor e consumidor.

 

Referências

Amorim, L., Rezende, J.A.M., Bergamin Filho, A. Manual de fitopatologia: Princípios e Conceitos. Ed. Agronômica Ceres, v.1, 5 ed., 573 p. 2018.

Igarashi, W.T., França, J.A., Silva, M.A.A., Igarashi, S., Saab, O.J.G.A. 2016. Application of predicton models of soybean rust in two crop seasons, in Londrina, PR. Semina: Ciências Agrárias 37(5): 2881-2890. http://dx.doi.org/10.5433/1679-0359.2016v37n5p2881

Montuori, M. 2020. Recognising the importance of plant health in today’s world. South African Journal of Science 116(11-12): 1-2 http://dx.doi.org/10.17159/sajs.2020/8966.

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Seixas, C.D.S., Possamai, E.J., Reis, E.A., Oliveira, G.M., Heling, A.L., Oliveira, A.B., Lima, D., Silva, G.C. 2020. Monitoramento de Phakopsora pachyrhizi na safra 2019/2020 para tomada de decisão do controle químico da ferrugem-asiática da soja. Londrina: Embrapa Soja, Circular Técnica 164, 28 p.

 

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