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O Trichoderma transformou o panorama do controle biológico de doenças de plantas, sendo um biofungicida e bioestimulante de ação comprovada.

Os benefícios e desafios do uso de Trichoderma na agricultura

Figura 1. Crescimento micelial e principais enzimas produzidas pelo Trichoderma, quitinase, celulase e fosfatase. Foto: Cleverson Rodrigues. Experimentos desenvolvidos pelo GEFA (Grupo de Estudos em Fisiologia Agrícola) da Unesp.

Nas últimas décadas, o uso de Trichoderma transformou o panorama do controle biológico de doenças de plantas, categorizado como biofungicida e bioestimulante de ação comprovada. Esse gênero fúngico apresenta mais de 250 espécies, em sua maioria como habitantes dos solos, associados à fração orgânica e à rizosfera das plantas, além de estar adaptados a diferentes condições geográficas (Abreu & Pfenning, 2019).

Várias espécies do gênero Trichoderma integram os chamados bioinsumos, que são produtos ou tecnologias de origem vegetal, animal ou microbiana, usados na produção, armazenamento e beneficiamento de produtos agropecuários para melhorar o crescimento, o desenvolvimento e os mecanismos de respostas de animais, plantas e microrganismos e/ou para melhorar a fertilidade do solo e a disponibilidade de nutrientes para as plantas. Atualmente, 67,5% dos produtos registrados como fungicidas microbiológicos possuem cepas do gênero Trichoderma como ingrediente ativo (Mapa, 2020).

O Trichoderma atua de forma direta e indireta em suas relações antagônicas, isso por possuir o maior número, em qualidade e quantidade, de genes que codificam enzimas hidrolíticas como glucanases, quitinases, peroxidases e proteases (Figura 1), responsáveis por um arsenal de metabólico altamente eficiente nas atividades antibióticas, envolvidas nas rotas de percepção da presença de patógenos em potencial e nas rotas de sinalização bioquímica a pontos distantes do sítio onde o sinal foi originado,  levando a promoção da indução de resistência. Além disso, o Trichoderma possibilita a ação bioestimulante no desenvolvimento vegetal por meio da produção de fitohormônios (auxinas, ácido indol acético, citocininas, giberelinas, ácido abscísico, etileno, ácido salicílico e ácido jasmônico) capazes de estimular o crescimento lateral de raízes, garantindo uma maior eficiência no uso de alguns minerais e aumento da disponibilidade e absorção de nutrientes pela planta (Guzmán-Guzmán et al., 2019; Monte et al., 2019).

Outro benefício associado ao uso do Trichoderma na agricultura está na sua capacidade de secretar diferentes ácidos orgânicos (glucônico, cítrico, fumáricos e outros), cujos papeis são especiais na absorção de nutrientes, visto que diminuem o pH do solo e facilitam a solubilização de fosfatos (íons de fósforo retidos em óxidos de ferro e alumínio são convertidos em fosfato  di ou monobásicos, ficando prontamente disponíveis para a absorção), micronutrientes e cátions como magnésio, manganês e ferro (por meio de  moléculas quelantes de Fe3+ denominadas sideróforos, que as reduzem a Fe2+), esses íons servem como cofatores para várias classes de enzimas e desempenham um papel fundamental como nutriente para o crescimento e desenvolvimento das plantas (Figura 2) (Vinale & Sivasithamparam et al., 2012; Bononi et al, 2020; Sood et al., 2020).

Figura 2. Papel do Trichoderma na ação bioestimulante do crescimento de plantas. Foto: Cleverson Rodrigues.

Desta maneira, os ganhos ambientais, sociais e econômicos são tidos como pilares fundamentais na proposta de uso do Trichoderma nos sistemas de produção agrícola, tornando-se uma ferramenta cada vez mais promissora no manejo fitossanitário, principalmente no controle de patógenos altamente agressivos como: Fitonematoides, Fusarium, Rhizoctonia, Sclerotinea dentre outros de difícil controle por produtos químicos, partindo então dos primórdios da Revolução Verde (década de 60) para a racionalidade da biotecnologia e suas investigações para uma nova fase da agricultura moderna chamada de Química Verde, na qual a geração de produtos químicos está sendo projetada para que se possa extrair o máximo de funcionalidade de cada produto e reduzir ou eliminar os impactos de seu desenvolvimento e uso (Clb, 2020).

No último biênio o Brasil se destaca frente as políticas de incentivos legislativos, fiscais e financeiros para que se consolide e amplie os avanços do setor de bioinsumos, tão logo ações concretas e de eficiência comprovada juntos aos produtores fará com que a adoção de práticas como a aplicação de Trichoderma se torne uma realidade em suas propriedades, porém, os gargalos ainda estão na falta de distribuição e aplicação coerente dos recursos destinados a esse seguimento no campo da pesquisa, seja por meio da divulgação, técnicas de difusão, orientação, capacitação e conhecimento de toda potencialidade que este bioinsumo possibilitaria ao agroecossistema.

 

Referências

Abreu, L. M., & Pfenning, L. H. (2019). O gênero Trichoderma. Trichoderma, 163. In.: Trichoderma: uso na agricultura / Maurício Conrado Meyer… [et al.], editores técnicos. – Brasília, DF : Embrapa, 538 p.

Bononi, L., Chiaramonte, J.B., Pansa, C.C. et al. (2020). Phosphorus-solubilizing Trichoderma spp. from Amazon soils improve soybean plant growth. Scientific Reports 10: 2858 https://doi.org/10.1038/s41598-020-59793-8

Clb – Crop life Brasil (2020). “Química verde”: uma nova forma de se produzir. Disponível em: https://croplifebrasil.org/noticias/quimica-verde-uma-nova-forma-de-se-produzir/ Acesso em: 10 de março de 2021.

Guzmán-Guzmán, P., Porras-Troncoso, M. D., Olmedo-Monfil, V., & Herrera-Estrella, A. (2019). Trichoderma species: versatile plant symbionts. Phytopathology 109(1): 6-16. https://doi.org/10.1094/PHYTO-07-18-0218-RVW

Mapa – Ministério da agricultura, pecuária e abastecimento. (2020). Disponível em: https://www.gov.br/pt-br/noticias/agricultura-e-pecuaria/2020/05/programa-nacional-de-bioinsumos-incentiva-desenvolvimento-sustentavel-na-agropecuaria. Acesso em: 10 de março de 2021.

Monte, E., Bettiol, W., & Hermosa, R. (2019). Trichoderma e seus mecanismos de ação para o controle de doenças de plantas. Trichoderma, 181. In.: Trichoderma: uso na agricultura / Maurício Conrado Meyer… [et al.], editores técnicos. – Brasília, DF : Embrapa, 538 p.

Sood, M.; Kapoor, D.; Kumar, V.; Sheteiwy, M.S.; Ramakrishnan, M.; Landi, M.; Araniti, F.; Sharma, A. 2020. Trichoderma: The “Secrets” of a Multitalented Biocontrol Agent. Plants 9: 762. https://doi.org/10.3390/plants9060762

Vinale, F., Sivasithamparam, K., Ghisalberti, E. L., Ruocco, M., Woo, S., & Lorito, M. (2012). Trichoderma secondary metabolites that affect plant metabolism. Natural Product Communications 7(11): 1934578X1200701133.

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Autor(a) do Post

Cleverson Rodrigues
Cleverson Rodrigues
Doutorando em Agronomia (Sistemas de Produção) – Faculdade de Engenharia de Ilha Solteira (FEIS/UNESP).

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